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Mente Desconexa

é tudo muito bonitinho até o capítulo dois.

Quando "dizemos que um dia teremos de morrer, há uma parte da nossa mente que se recusa a admitir aquilo que sabe ser destino de todos os seres vivos, faz de conta que não é nada com ela..." observa José Saramago (A caverna, pág. 233), que também lembra "que todos os dias passados foram vésperas e todos os dias futuros o hão-de ser. Tornar a ser véspera, ao menos por uma hora, é o desejo impossível de cada ontem que passou e de cada hoje que está passando. Nenhum dia conseguiu ser véspera durante todo o tempo que sonhava." (p. 274). O certo é que, num contexto semelhante, "não adianta ficar a discutir se se gosta muito, ou pouco, ou nada, como quem desfolha malmequeres." (p. 280).

"Memento mori", uma expressão, em latim, usada pelos monges trapistas, significa "Lembra-te de que hás de morrer". Refletir sobre a velhice é, de certa forma, representar-se no meio de um campo de batalha: a morte de estranhos não nos impressiona, apesar de a visita da morte quase invariavelmente nos assustar; parentes e amigos estão indo, ou se foram, e, nós, sobreviventes, quando maduros e amadurecidos, realizamos, contando os dias, na expressão bíblica, a convivência com o irreversível. Viver cada dia como se fosse o último, porque um dia vai ser mesmo. Carlos Drummond de Andrade, na obra Claro enigma, diz, em "Memória", que 'Amar o perdido / deixa confundido / este coração'. Esvai-se, e nos desvaece, à medida que se envelhece, a ilusão de indestrutibilidade que, por ser ilusão, nunca possui um fundo de garantia, conquanto integre o ardor da juventude.
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